9 de fevereiro de 2013

Falando ao coração - Leo Lynce


As Flechas de Cupido - Perrault Leon Jean Basile, 1832-1908 


Falando ao coração
Leo Lynce
(Pseudônimo de Cyllenêo Marques de Araújo Valle)


Não creias nela, coração, não creias nela.
Esquece a meiga voz, o doce encanto
Dessa mulher que esconde, assim tão bela,
A falsidade num doirado manto.

Não creias nessa gota que lhe estrela
A face, desconfia desse pranto.
Toma cuidado e foge da procela
A que te arrasta da sereia o canto.

Essa mulher te foi perjura e ingrata,
Esquece-a, coração, sê mais altivo
Ante a beleza que te avilta e mata;

Assim falei ao coração covarde;
Mas ele, o pobre, o mísero cativo, 
Sentidamente respondeu-me: - É tarde.



   
Cupido apresentando uma rosa para uma borboleta  
Antoine-Denis Chaudet, 1802-1807



Cupido
Personagem da mitologia romana (Eros para os gregos), era o deus do amor. 
Levava consigo um arco de prata e flechas de desejo que atingiam os corações 
de homens e deuses despertando amor e paixão. 
Cupido, em latim, quer dizer Amor .















... “e de amar assim, muito amiúde, é que um dia, em teu corpo 
de repente, hei de morrer de amar mais do que pude."
  
Vinícius de Moraes   






5 de dezembro de 2011

Felicidade - Olegário Mariano

Peter Paul Rubens - As Três Graças, 1620–24.


Felicidade
Olegário Mariano

Não creias nunca na felicidade,
Não creias que ela é como o teu amor:
Passa e deixa um perfume de saudade
Purificada em lágrimas de dor.

Gastei meu sangue na intranquilidade
De busca-la, insensato sonhador!
Ela é a opala do sonho, a leviandade,
Passa de mão em mão, muda de cor.

Deixa que eu só me iluda em procurá-la
Felicidade é sombra que nos fala,
Que nos maldiz na vida ou bendiz.

Efêmera e imprecisa como um beijo,
Ela está sempre é no desejo
Louco que a gente tem de ser feliz.




        
Canova - As Três Graças 

   

     As Três graças

    Deusas da Mitologia Grega,
    Aglaia, Talia e Eufrosina, 
    simbolizam a felicidade, 
    a fertilidade, o encantamento, 
    a beleza e a amizade. 















"Não há tesouro comparável à paz de espírito e a estar a gente satisfeito consigo próprio! Ali! meu caro amigo, se esta alegria não fosse tão fugaz quanto é bela e preciosa!"
Goethe em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”










15 de novembro de 2011

O Tédio ( Henrique Heine )

Clown Making Up (1909) - John French Sloan (1871 - 1951)


O Tédio
Heinrich Heine

- Eu venho aqui, doutor, fazer-vos uma consulta.
A doença que me punge e esteriliza a mocidade e o espírito,
resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
Muito embora comum a toda gente, a dor que sofro,
- atroz hipocondria! - tanto me torna pensativo e doente
que já não sei mais o que é paz nem alegria.

Sendo o mais sábio clínico do mundo,
sois também um filósofo notável.
Do peito humano auscultador profundo,
curareis este mal imensurável,
que me esmaga o organismo fibra a fibra,
que me corroí o cérebro e o condensa. 

Eu tenho um coração que já não vibra,
suporto uma cabeça que não pensa.
E este tédio mortal, tédio agoureiro,
que me consome e me escurece os dias,
é como os beijos dados a dinheiro
numa noite de orgias.

- O amigo tem razão, padece realmente.
Contudo, a enfermidade que o devora
é o produto fatal do século de agora.
Podes curá-la, creia apenas num momento.
O tédio é uma sombria, uma fatal loucura.
É a sombra anterior da longa noite escura,
onde se esquece tudo: a sorte, a vida ousada.

Só se lembra um ser, só se lembra um nada.
Diga-me: alguma vez amou? Nunca estrugiu em seu peito,
como as ondas do mar que rugem e se encapelam
ao soturno rumor do vento e da procela?
Junto, bem junto ao seu, que de dores se junca,
bateu um coração apaixonado?

- Nunca!
- Pois então amigo, procure a agitação constante!
Vá visitar a Grécia, o Oriente, a Terra Santa.
São sítios onde tudo se evoca e se decanta
as glórias de uma idade imorredoura e eterna,
que maravilha e deslumbra a geração moderna.

- Em híbridos prazeres passei a mocidade.
Percorri viajando o mundo e a humanidade
como o judeu da lenda.
Entre as mulheres todas cujos lábios beijei
em bacanais e bodas,
mulher nenhuma eu vi sobre a terra tamanha,
que para mim  não fosse uma visão estranha.

Como parti, voltei. Sem achar lenitivo
para este mal, doutor, que assim me traz cativo.
- Frequente o circo, amigo. A figura brejeira
do famoso Arlequim que a esta cidade inteira
palmas e aclamações constantemente arranca,
talvez lhe restitua a gargalhada franca!

- Vejo agora, doutor, que o meu caso é perdido.
O truão de quem falais, o palhaço querido
que anda no Coliseu tão aclamado,
tem um riso de morte, um riso mascarado
que encobre a dor sem fim do tédio e do cansaço.
Sou eu, doutor, sou eu este palhaço!













“Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas.”
Pablo Neruda






Poema XX (Pablo Neruda)

Noite estrelada sobre o rio Ródamo, de Van Gogh (1888) Museu Van Gogh 


Poema XX
Pablo Neruda 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
Pablo Neruda
in Cem poemas de amor e uma canção desesperada


Este é um dos poemas mais lindos que já li!


6 de novembro de 2011

Solar Desierto - Olavo Bilac - Versión de L. Ramos G.

                             
Solitary House - Mondrian, Piet 1898 - 1900 Aguarela e guache  
Museu Municipal de Haia

SOLAR DESIERTO

Olavo Bilac (Versión de L. Ramos G.)

Vienes buscando amor, triste y cansada,
Amor que el fuego de otro amor procura,
A mis cariños a pedir ventura
Cual si pidieras a un solar posada.

Pobre viajera! – Por La noche obscura
Vas en vano; la puerta está cerrada
Y en torno a aquella casa abandonada
Reina el silencio de una sepultura.

Golpeas. Más nadie acudirá, por cierto,
A tu llamado. Inanimada e fría
Caerá la puerta del solar desierto.

Llegas tarde. Cerrada está la puerta
Y aquella alma que te recibiría
Ya no despertara porque está muerta.



A Música - Charles Baudelaire Em "as Flores do Mal" Tradução de Delfim Guimarães



Lamentos de Orfeu,Óleo sobre madeira,1896 - Alexandre Séon (1855-1917) - Museu de Orsay, Paris


A Música

Charles Baudelaire
Em "as Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minha alma acalentar.
- Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!


Soneto (Maciel Monteiro)

Tamara de Lempic - High Summer, 1928, oil on wood, private collection.



Soneto
Maciel Monteiro

Formosa qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa qual jamais desabrochara
Em primavera a rosa purpurina;

Formosa qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual no céu jamais brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;

Formosa, qual se a natureza e a arte
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais pôde imitar no todo ou parte;

Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te sem morrer de amores?

28 de março de 2009

Clarisse - Auta de Sousa

Mulher com rosas - William Waterhouse

CLARISSE
Auta de Souza

“Não sei o que é tristeza,” ela me disse...
E a sua boca virginal sorria:
Ninho de estrelas, concha de ambrosia
Cheia de rosas que do Céu caísse!

E eu docemente murmurei: Clarisse,
Será possível que tu’alma fria
Ouvindo o choro da Melancolia
O ressabio do fel nunca sentisse?

Será possível que o teu seio, rosa,
Nunca embalasse a lágrima formosa?
Ah! Não és rosa, pois não tens espinho!

E os olhos teus, dois templos de esperança,
Nunca viram sofrer uma criança,
Nunca viram morrer um passarinho!









1 de fevereiro de 2009

Dor Suprema (Rocha Junior)

Bierstadt, Albert - Sunlight and Shadow, 1862, oil on canvas, Fine Arts Museums of San Francisco.


Dor Suprema
Rocha Junior

Tu que não sabes o que é sofrimento
E o sorriso desta lágrima escondida,
Tu que me vês cheio de desalento,
- Folha inda verde num tufão varrida...

Tu que tens, para teu contentamento,
O doce afago de tua mãe querida,
Passa. – Não te preocupe o meu tormento,
Passa. – Deixa que eu chore a minha vida.

Podem ser tristes como um mal sem cura,
A fome, a peste, os vícios, a loucura,
Todas as formas físicas da dor.

Dor nenhuma, porém, tem mais raízes
Que a de viver penando, entre os felizes,
Sem pai, sem mãe, sem nome e sem amor.

21 de janeiro de 2009

Meu Domingo (J. Ananias)


Monet - The Waterlily Pond, 1899, The National Gallery, London.


Meu Domingo
José Ananias



Eu plantei o meu domingo
Nas águas do Lago Verde,
Num recanto à beira-mar
E fiquei de olhos fechados,
Como quem sonha acordado,
Esperando alguém chegar.

Porém o vento, atrevido,
Como quem já tem costume...
Entrou sem pedir licença,
Beijou as águas do Lago
E partiu a murmurar...

Reagindo ao desacato,
Fui ao Palácio do Vento...
E o vento... desesperado,
Voltou, quebrando as vidraças
Das janelas do silêncio.

Mas meu domingo, travesso,
Refestelou-se nas asas
Do tempo que não tem tempo
De sequer fazer promessa
De que vai voltar atrás.

Mas pode ser que aconteça
Que, antes do inverno chegar,
Por milagre, novamente,
Ele germine ou floresça
No Lago Verde ou no Mar.

E que ninguém me pergunte
Porque plantei meu domingo
Nas águas do Lago Verde...
E fiquei de olhos fechados,
Como quem sonha acordado,
Esperando alguém chegar.



(Publicado no Anuário de Poetas do Brasil 1.983)

-->

Sobre o Autor deste poema, meu querido pai:

Biografia de José Ananias

J. Ananias é o nome literário de José Ananias. Nascido em Piumhi aos 30 de junho de 1914, Minas Gerais. Casou-se em 1.945 com Terezinha Rodrigues Ananias. Pai de 12 filhos.
Autor de vários livros de Poesia, seu nome é constantemente grafado em múltiplas antologias e coletâneas.
José Ananias nutre especial intimidade com a estrutura de sonetos e trovas, escolhendo temas pertinentes e associando simplicidade com argúcia no exercício de transformá-la em matéria poética.
Dirigiu e trabalhou em teatro amador em Caetanópolis, Piumhi e Nova Lima e em rádioteatro, na Rádio Cultura de João Monlevade. Radiofonizou algumas peças, entre elas uma pequena novela.
Músico da “Lira São José” e coral em Nova Lima. Professor, ator, cronista, trovador.
Alguns de seus trabalhos publicados: ”O Cofre de Beatriz”, “A Praça dos Três Poderes”, “Entre o Amor e o Pecado”, “A João Paulo II”, “A Cristo Crucificado”.
Participou do “Anuário de Poetas do Brasil” de 1.979 à 1.985.
Entidades a que pertence (como sócio correspondente): Academia Anapolina de ciências e Letras, Clube de Poesia de Uruguaiana (RS), Centro de estudo e Difusão Cultural “Roma guerra Corrêa” (Uruguaiana – RS), Academia de Trovadores da Fronteira Sudoeste (RS), Clube Internacional da Boa Leitura (Uruguaiana - RS), Associação Uruguaianense de Escritores e Editores (RS), Academia de Letras da Fronteira do Sudoeste (RS), Academia Internacional de Letras “3 Fronteiras” (RS), Federação das entidades Culturais Fronteiristas (RS).
José Ananias reside hoje em Belo Horizonte.





10 de janeiro de 2009

Suplício Eterno (Francisco Cavalcanti Mangabeira)




Suplício Eterno
Francisco Cavalcanti Mangabeira

Não devo amá-la e amo-a com loucura,
Quero esquecê-la e trago-a na lembrança...
Ai quem me livra desse mal sem cura
A que o destino trágico me lança!

Uma nuvem de tédio e de amargura
Cobre-me a loura estrela da esperança...
Tudo cansa por fim na vida escura,
Só este amor infindo é que não cansa!

Se os olhos cerro, vejo-a nos meus sonhos.
Se à noite acordo, sinto que enlouqueço,
De uma angústia nos vórtices medonhos.

E esta morte em que vivo jamais finda,
Pois quanto mais procuro ver se a esqueço
Sinto que a adoro mais ainda!







7 de janeiro de 2009

Despedida (Jader de Lima)

Franz Von Stuck -The Kiss of the Sphinx, 1895, 
oil on canvas, Szépmüvészeti Múzeum, Budapest. 

DESPEDIDA
Jader de Lima

Há muito que era noite: pela estrada
Um silêncio de sono se estendia.
- Tu ias perto de mim triste e calada,
- Perto de de ti calado e triste eu ia.

Era bem tarde, aos lampiões escassos,
Poucos passantes transitavam; montes,
Vales, outeiros se tornavam braços,
Limitando os extremos horizontes.

E nós levávamos no olhar a pena
De que, impiedoso, nos mandasse Deus,
Contra os momentos de alegria plena,
Os maus momentos de dizer adeus.

Ocultas emoções, de parte a parte
Vinham mansas, a furto nos tentar:
Em mim – o medo egoísta de deixar-te,
Em ti – o medo honesto de ficar.

Já no momento da separação,
Eu te falei: – amor, leva contigo
E guarda junto de teu coração
Meu coração de amante, irmão e amigo;

Leva com ele esta promessa linda
De que terei saudades de te ver;
Leva os meus votos de ternura infinda,
Todo o infinito do meu bem-querer;

Leva também meus pensamentos, feitos
Por dar-te culto intenso e permanente;
Graças a ti são nobres e perfeitos,
Pois foste tu que me inspiraste a mente.

E para que viva sempre esta esperança
De uma existência eternamente unida,
Leva a sublime esplendida lembrança
Desta noite – tão nossa – em tua vida.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
E então, mais bela sob a sombra vaga,
Numa ousadia encantadora e louca
Tu me beijaste e me disseste: - em paga,
Leva o gosto do amor em tua boca!